As escavações arqueológicas, com carácter sistemático, tiveram início no ano de 1985, no seguimento de algumas destruições que haviam sido provocadas pela laboração de uma pedreira no sopé do monte de S. Lourenço. A partir desta data procedeu-se à musealização com a consolidação de estruturas habitacionais que iam sendo postas a descoberto. Assim, várias casas foram restauradas, sobretudo aquelas que tinham sido danificadas com a abertura do caminho de acesso à pedreira. Nos anos seguintes, em cada campanha arquológica promovida naquele local, além da escavação propriamente dita tem havido sempre trabalhos de consolidação e restauro das estruturas.

A maior povoação castreja do concelho de Esposende, foi construído num dos muitos esporões rochosos que compõem e caracterizam a cadeia montanhosa que ladeia a faixa costeira. O ponto onde se encontra é um dos mais defensivos de toda a arriba, com vertentes escarpadas e pedregosas voltadas a Sul e ao mar e uma coroa formada por uma imponente massa granítica, que foi no início da nacionalidade portuguesa adaptada a fortaleza para, posteriormente, ser cristianizada, com a capela dedicada ao mártir S. Lourenço. Se outros valores patrimoniais não convidassem o visitante a subir a íngreme ladeira por onde serpenteia a estrada camarária , bastaria a esplendorosa vista que alcança sobre o Cávado, em fim de travessia, sobre o oceano de insondáveis horizontes, para que se sentisse recompensado com a magnífica lição de geografia humana que é a ocupação da orla costeira do concelho de Esposende. O Castro de S. Lourenço tem as suas raízes no Bronze Final, nos alvores do I milénio antes de Cristo. Desta fase inicial da ocupação do monte sabemos haver um machado de bronze e nas escavações tem-se vindo a recolher alguns fragmentos de vasos cerâmicos datáveis desse momento.

Por elementos já recolhidos nas escavações arqueológicas mais recentes, a aldeia castreja terá nascido entre o séc. VII e o VI a.C., contudo desta fase possuímos apenas escassos fragmentos cerâmicos dos vasos que foram usados no dia a dia das populações de então. Também é difícil de caracterizar o período que medeia entre o séc. V e o IV a.C. documentado através de um fragmento de cerâmica ática decorada com figuras vermelhas e que terá chegado até aqui através de trocas comerciais realizadas entre comerciantes púnicos e os moradores do castro.

As casas

As primitivas casas do castro de S. Lourenço foram construídas com elementos arbustivos até ao momento em que a pedra foi usada como matéria-prima fundamental (séc. IV a. C.) na estruturação das paredes das diversas construções que compunham a aldeia. Até ao advento da romanização (séc. I a.C.) as casas distribuiam-se no interior da área urbana, sem critérios defenidos, à revelia de qualquer alinhamento ortogonal, que não existia, estando os espaços de circulação estabelecidos de acordo com as necessidades de cada morador. As ruas, de pequeno porte e espaços de circulação empedrados, eram providos de canais para escoamento das águas pluviais.

N o séc. II a.C. e I d.C. foram construídas uma série de casas redondas, cobertas com palha e outros elementos vegetais e que viriam a ser destruídas por um grande incêndio, facto que haveria de conduzir a uma grande remodelação em toda a aldeia com a construção de novas casas, dispostas em patamares sabiamente arquitectados, sustentados por poderosos muros de suporte, por sítios onde o terreno se apresentava mais declivoso. Foi também por esta altura que foram introduzidos acrescentos à tradicional área coberta das casas com os vestíbulos ou "caranguejos" – assim designados por lembrarem os crustáceos – e alguns empedrados, verdadeiros espaços de circulação que pretendiam ordenar uma anárquica distribuição dos antigos modelos habitacionais, numa disposição mais organizada e de acordo com os princípios da ortogonalidade do urbanismo romano. Dessa altura é a distribuição das casas por núcleos familiares, organizados em redor de um pequeno espaço lageado e contornado por muros que poderão, nas zonas em declive, funcionar também como muros de suporte. Os núcleos familiares comportavam três ou mais estruturas cobertas e a entrada far-se-ia a partir dos arruamentos, dificilmente rectilíneos, devido aos condicinalismos topográficos e à anterior existência de estruturas que não puderam ser desmanteladas na altura em que o castro foi sujeito a uma grande remodelação. O ponto central de cada núcleo era o espaço lageado para o qual se abriam as portas de diversas construções, fossem elas habitação, arrumos, currais ou celeiros. O lageamento facilitava a circulação, dificultava a inflitração de água nos alicerces das casas e permitia que funcionasse como eira na secagem de frutos e cereais.

Actividades artesanais

Numa sociedade que estava organizada segundo um sistema gentílico, ou seja, baseada nos laços de sangue, com um determinado espírito de hierarquização, é óbvio que havia um certo número de profissões, algumas de real importância no quadro comunitário. Profissão que atingiu um elevado grau de especialização foi a de pedreiro, sobretudo no trabalho de cantaria bem patente nas muitas pedras, bem desbastadas, aparelhadas e picadas, que se têm vindo a recolher no castro. O trabalho insano que foi o de erguer muralhas, habitações, muros de sustentação e suporte, edifícios públicos, enquadramento de ruas e espaços comunitários exigiu o corte, o transporte, a arte e o saber de um grande número de operários especializados, neste caso no trabalho da pedra. Mas todo o seu saber e intuição ficariam muito aquém dos resultados conseguidos caso não tivessem tido o apoio da metalurgia, dos tão conhecidos ferreiros que, em bronze e em ferro, fabricaram uma vasta gama de instrumentos que vão das picas e martelos aos instrumentos agrícolas, aos utensílios para cortar e trabalhar a madeira, a um vasto conjunto de armas – punhais, espadas, pontas de lança, pontas de seta, capacetes e peças que decoravam escudos – e de objectos culturais e de adorno e nestes, sobretudo, as tão características e diferenciáveis fíbulas que sobressaíam, exteriormente, nas roupas que se envergavam. Ferreiros e oficinas onse se misturava o estanho e cobre para se obter o bronze houve-as em S. Lourenço consoante o comprovam bocados de cadinhos e sobretudo as muitas escórias e pequenos fragmentos de bronze. Tais descobertas permitem ajuizar que alguns objectos de adorno aqui seriam fabricados, por exemplo as fíbulas que têm vindo a aparecer em bom número.

O fabrico da cerâmica deverá também ser entendido como um dos campos profissionais que mais em voga entre os operários especializados que viviam no interior das muralhas do Castro de S. Lourenço. É evidente que não temos provas de aqui ter havido uma ou mais olarias, mas tal será de admitir para as produções anteriores à introdução da roda de oleiro, algo que poderá ter acontecido já na segunda metade do séc. II a. C. As mais antigas cerâmicas do Castro de S. Lourenço são pequenos fragmentos que não permitem ajuizar a forma, mas que são atribuíveis ao início do I milénio a. C. Eram vasos de paredes espessas, fabrico grosseiro, com muita areia a servir de desengurdorante e, naturalmente, de fabrico manual. Manuais continuaram os fabricos dos mais antigos vasos cerâmicos castrejos, de pastas de coloração beje, castanha e rosada, com elevados teores de mica e areia a darem consistência a uma pasta cuja cozedura oxidante ou redutora atingia temperaturas não muito elevadas. Usados como vasos de armazenamento de líquidos e cereais e sobretudo na cozinha ostentam, não raramente, uma intensa decoração onde os motivos mais típicos englobam SSS, círculos concêntricos, triângulos e besantes. A introdução da roda de oleiro, que se divulgou sobretudo a partir da segunda metade do séc. I a. C., permitiu a adopção de certos processos técnicos que se traduziram, de facto, numa padronização morfológica e decorativa das peças. As formas enveredaram, sobretudo, pelos perfis em S e pelo fundo raso. Nas pastas optou-se cada vez mais pelos desengurdorantes micáceos; a cozedura ganhou qualidade numa atmosfera oxidante e no plano decorativo passaram a dominar as técnicas de incisão e de estampagem numa superficie alisada ou razoavelmente bem polida. Foi naquela altura que se multiplicaram os grandes vasos de armazenamento, as panelas de suspensão de ir ao lume e as pequenas taças e vasos acampanulados que, entre outras funções, serviriam para beber.