Faianças Portuguesas

Contribuição das colecções do Museu Municipal de Viana do Castelo para o seu conhecimento

Viana localiza-se no extremo norte de Portugal, muito próxima da Galiza, no noroeste da Espanha, e engloba a área mais ocidental das margens do Lima, junto de cuja foz a cidade está implantada.
A múltipla configuração da paisagem, repartida entre o vale e as montanhas, animada pelo rio Lima e outros cursos de água, recortada e vivificada pelo Oceano, suavizada por um clima agradável, variado mas sem extremos, e matizada pelas cores vivas mas discretas e harmoniosas da natureza e do céu, unidos por uma atmosfera límpida e transparente, e a natureza fértil do solo conjugam-se para fazer da região uma das mais belas e aprazíveis de Portugal e do mundo.
A fundação da actual Viana deve-se ao foral outorgado por D. Afonso III, a 18 de Junho de 1258.

No século XVI Viana atravessou uma época de prosperidade resultante da actividade dos mareantes, que sulcavam os oceanos entre os cinco continentes. Como fruto e testemunho desse florescimento, construiu-se uma série de palacetes de estilo manuelino, dentro e fora das muralhas. Em meados do século XVII, a prosperidade vianesa, depois do interregno que sofreu sob a dominação estrangeira, conhece um novo surto, com o comércio do açúcar brasileiro, a que se vem ajuntar a riqueza proveniente das minas de ouro do Brasil. Aliada a esse surto de riqueza, a escola de arquitectura, iniciada com Miguel de Lescol e continuada com Manuel Pinto de Vilalobos, nos fins do século XVII e primeira metade do século XVIII, contribuirá para encher a cidade de belos edifícios, para a renovação de outros, designadamente conventos e igrejas, mas além dos palacetes urbanos surgirão as numerosas casas nobres do espaço rural - os solares. Nesses solares se recolheram no fim do século passado e nas primeiras décadas deste século as principais espécimes que constituem o recheio do Museu Municipal de Viana, e designadamente as suas extraordinárias colecções de cerâmica.

Nas residências nobres foi bastante limitado o êxito obtido pelas faianças de fabrico português, e de inspiração italiana, nos finais de quinhentos e inícios do século XVI, ao contrário do que sucedeu em relação ao azulejo, e a razão estará na importação das louças orientais. O comércio das porcelanas, que, no entanto, nunca constituía volume significativo no conjunto das importações portuguesas, intensificou-se a partir de meados do século XVI. A voga das porcelanas orientais, sobretudo nas casas mais ricas, explicará a decadência da indústria de cerâmica portuguesa na segunda metade de quinhentos. A crise que afectou os interesses portugueses no oriente, nos começos do século XVI, irá, porém, estimular uma nova fase de incremento da faiança portuguesa. Tratava-se de substituir as porcelanas chinesas por um produto que se lhe assemelhasse e cumprisse as mesmas funções, nas moradias portuguesas e no mercado externo. Inicia-se então um dos períodos áureos da faiança portuguesa. Assistir-se-á, porém, a um novo período de decadência que se prolonga durante os três primeiros quarteis do século XVIII. A que é devida essa decadência, para mais numa época em que não escassearão os meios económicos e em que até se manifesta, em mais que um momento e de diversos modos, a predilecção pelas artes do oriente e designadamente pelas "chinoiseries"? No fundo, às mesmas razões que fizeram frustar a política económica do Conde da Ericeira, e de um modo especial, à afluência dos metais preciosos, com que, entre outras coisas, se irão fabricar as baixelas, que dispensarão as faianças artísticas, de que eram principais clientes as casas mais abastadas. Os bons decoradores da cerâmica ocupar-se-ão na pintura de grandes paineis de azulejo, então em moda, para as igrejas, conventos e palácios. Será necessário que passe a onda de prosperidade e de luxo, e se abata sobre o país uma crise económica, para que se adopte uma política industrializadora, de que irão beneficiar as faianças, quer pela atenção que lhes dedica o estado, quer pelo favor que reconquistam nas moradias particulares. A política industrializadora, que corresponde à segunda fase do despotismo esclarecido do Marquês de Pombal, pretendeu responder à crise que afectou Portugal entre 1768 e 1771. Nessa política se enquadra o alvará publicado em 1770, que estabelecia medidas de protecção para as fábricas de louça já instaladas ou que viessem a instalar-se no país. Das disposições proteccionistas consignadas no alvará constavam a proibição de entrada no país de toda a louça estrangeira, com excepção da que viesse da Índia ou da China em navios portugueses, e a isenção do pagamento de direitos de saída do país, concedida a toda a louça de fabrico nacional. Beneficiaram desta protecção duas indústrias lançadas pouco tempo antes, em Lisboa, com privilégios especiais, a Real Fábrica do Rato, anexa à fábrica das sedas, fundada por Tomás Brunetto, em 1767, e a instalada por iniciativa de Paulo Pauletti, na Travessa dos Ladrões, em 1769, assim como, no Porto, a Fábrica de Massarelos, fundada à volta de 1766, e a Real Fábrica do Cavaquinho, de 1768, e outras de fundação posterior, entre as quais se contam em primeiro lugar a de Viana (Darque), de 1774, a de Miragaia, no Porto, de 1775, e, posteriormente, de mais algumas, tal é o caso de Santo António do Vale da Piedade, no Porto, em 1790, e, em Lisboa, da Real Fábrica da Bica do Sapato, em 1796, sinal de que este ramo industrial prosperava. Em Coimbra, onde já existia uma forte tradição ceramista, desenvolvida nos tempos de Manuel Costa Brioso, a renovação chegou através de Vandelli, com a fábrica do Rocio de Santa Clara, em 1784. Desenvolver-se-ão ainda as faianças noutros centros menores como Estremoz e Juncal, no distrito de Leiria.

Nesta renovação das faianças tiveram influência os contactos com o estrangeiro, especialmente com a Itália e a França, concretizados ora no apoio dado quer por especialistas, chamados a tomar parte na renovação dos estudos universitários, posta em marcha pelo marquês de Pombal, como no caso de Vandelli, quer por técnicos ou artistas expressamente contratados para trabalhar nas faianças portuguesas, como Tomaz Brunetto, ora na deslocação de ceramistas portugueses para fazer estágios nas fábricas de além fronteiras. Mas os artesãos portugueses souberam assimilar os elementos trazidos do exterior, e fundi-los com os motivos tradicionais e com os que eram fruto da própria capacidade de inventar, do que resultaram belas e originais obras de arte. Em meados do século XIX, as faianças portuguesas entram no seu derradeiro processo de decadência, devida à concorrência das produções externas, designadamente das inglesas, no mercado nacional, e ao crescente desenvolvimento das técnicas da porcelana, cada vez mais preferidas nas casas de maior requinte.
O Museu Municipal de Viana possui uma excepcional colecção de faianças, com várias séries que justamente se podem considerar únicas em Portugal e no mundo. Assim, orgulha-se de ter a mais numerosa e variada colecção da chamada louça azul portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Detém a mais representativa colecção de peças do período áureo da faiança portuguesa (últimas décadas do século XVIII e primeira metade do século XIX), provenientes dos mais importantes oficinas de Lisboa, Coimbra e Porto. Como não podia deixar de ser, guarda com orgulho a mais notável série das faianças produzidas localmente, as «louças de Viana», acerca das quais escrevia, na primeira metade deste século, um dos mais conceituados estudiosos da faiança portuguesa, Joaquim de Vasconcelos: «não se fez em parte alguma do paíz faiança que a excedesse».

António Matos Reis