História das Investigações de Bracara Augusta 

O pequeno e acanhado burgo medieval que se desenvolveu em torno da Sé catedral, sagrada em 1089, deixou fora do seu perímetro cerca de dois terços da anterior cidade de Bracara Augusta. Muitas das construções monumentais da Braga romana terão então sido desmanteladas, fornecendo abundante material de construção à cidade medieva, que não parece ter aproveitado qualquer edifício anterior. Os outros, reduzidos a escombros, terão deixado de ser visíveis durante séculos, transformadas que foram as áreas extra-muros em terrenos de cultivo. 

Muito embora a cidade medieval, nascida em torno da Sé, tenha mantido a traça romana na sua parte SO, aquela que se sobrepôs à cidade anterior, a memória de Bracara Augusta perdeu-se ao longo da Idade Média, ainda que devessem ser visíveis troços da muralha romana, referida pontualmente em documentos do séc. XII, bem como alguns muros e ruínas de um ou outro edifício melhor conservado. 
 

Tal como aconteceu por toda a Europa, data do Renascimento o despontar do interesse pelo passado histórico da cidade. Em Braga, o acordar da memória da velha urbs está ligado à acção dos arcebispos, em particular de D. Diogo de Sousa (1505-1532), cuja formação humanista, justifica, entre outras iniciativas, a sua preocupação em coleccionar as antiguidades romanas. Deve-se a este arcebispo a recolha de lápides e miliários no Campo de Sant'Ana, primeiro esboço de um Museu de Arqueologia da cidade. 
 

A publicação por Braunio, nos finais do século XVI (1594), de uma planta da cidade, na qual se assinalam alguns dos espaços da cidade romana, designadamente o forum e as saídas das principais vias militares, sugere que a memória da cidade antiga não se perdera por completo e que seriam então ainda visíveis bons troços das vias romanas que haviam ligado Bracara Augusta a outras cidades peninsulares. 
 

Deve-se a D. Rodrigo da Cunha a primeira síntese da história de Braga, publicada em 1634, na qual é analisada a ocupação até à Alta Idade Média e descritas, pela primeira vez, algumas ruínas ainda visíveis no seu tempo, designadamente um teatro que situa em Maximinos. 
 

   

Os vestígios encontrados em vários pontos da antiga cidade romana, entre os séculos XVI e XVIII, bem como as informações compiladas nas fontes escritas romanas, permitiram a Jerónimo Contador de Argote proceder a uma mais ampla tentativa de reconstituição da história da cidade romana, que integra numerosas informações, descrição de ruínas, interpretação de inscrições e uma primeira delimitação do perímetro da cidade, através de restos ainda conservados da sua muralha. 
 

A recuperação da memória de Bracara Augusta irá acelerar-se entre os séculos XVIII e XIX, quer pela divulgação de novos achados, quer ainda pelo desenvolvimento do espírito antiquarista, ao qual se ligam os nomes de alguns eruditos bracarenses, como Pereira Caldas (1818-1903), Albano Belino (1863-1906) e José Teixeira (1859-1928). Interessados no passado da sua cidade, estes homens reflectem bem o espírito da sua época, que se relaciona com a concepção da arqueologia enquanto disciplina científica e com a salvaguarda do espólio através de núcleos museológicos.  

Desta última iniciativa é eco a decisão da Câmara Municipal de Braga, em 1897, de criar um Museu nas Carvalheiras, destinado a guardar o espólio disperso pela cidade, projecto que só viria a concretizar-se em 1918 com a criação do Museu D. Diogo de Sousa, com sede no Paço Arquiepiscopal.  

Albano Belino, ardente promotor da arqueologia bracarense, criaria, entretanto, um primeiro núcleo museológico de Arqueologia, privado, onde reuniu a sua colecção particular, composta por numerosos monumentos epigráficos recolhidos em Braga e arredores, cerâmica, fíbulas, fragmentos de mosaicos e tijolos. Esta colecção dispersou-se, após a sua morte, em 1906, pelo Museu da Sociedade Martins Sarmento, pelo Museu Nacional de Arqueologia e de Etnologia do Porto. A Albano Belino se deve, também, a divulgação da epigrafia bracarense e descrição da muralha da cidade. 
 

   

Na segunda metade do séc. XIX são frequentes as notícias de achados arqueológicos em Braga, publicadas na imprensa local, pelo menos desde 1857, sendo de assinalar a sua referência nas actas da Câmara de Braga. Será, contudo o aparecimento de publicações periódicas de Arqueologia, nos finais do séc. XIX, que assegurará um registo mais sistemático das descobertas ocasionais, quase sempre sumário e impreciso. Raros foram, entretanto, os achados que sobreviveram ao tempo e ao desinteresse geral. A criação, em 1918, do Museu D. Diogo de Sousa permitiu que algum espólio de Bracara Augusta não tivesse o triste destino de muitos achados anteriores. No entanto, este Museu, criado sem meios logísticos e humanos, constituiu até à sua revitalização, em 1980, um simples armazém de peças.  

O crescimento urbanístico de Braga na primeira metade do séc. XX, continuava a deixar intocados praticamente dois terços da cidade romana, repartidos, até aos anos 60, por grandes quintas. Bracara Augusta conservou-se, assim, quase intacta, fora do perímetro da cidade moderna. Por isso, os conhecimentos sobre a cidade romana não progrediram substancialmente pois faziam-se de achados fortuitos descobertos um pouco ao acaso. 

Só a partir dos anos 50 Bracara Augusta começou a ficar verdadeiramente ameaçada, multiplicando-se, desde então, as destruições e, consequentemente, os achados, muitos dos quais dados a conhecer pelo Cónego Arlindo da Cunha, através da imprensa periódica e recolhidos, graças à sua acção, em diferentes museus, entretanto aparecidos em Braga. 
 

O surto urbanístico das décadas de 60 e 70 viria a revelar-se devastador para a cidade romana, até então conservada numa razoável extensão. A expansão da cidade para a área de Maximinos e Cividade, provocou maciças destruições, realizando-se, então, as primeiras escavações devidas ao Cónego Arlindo da Cunha e de J. J. Rigaud de Sousa. 

Só em 1976, e graças à conjugação de vários factores, dos quais destacamos a acção empenhada de um grupo de cidadãos de Braga, que constituem a CODEP e o papel desempenhado pela recém criada Universidade do Minho, foi possível parar as persistentes e impunes destruições de Bracara Augusta. É então criado o Campo Arqueológico de Braga, ligado à Universidade do Minho, que inicia uma série de prospecções e escavações sistemáticas, destinadas a delimitar zonas arqueológicas que deveriam ser preservadas. Nasce assim o Projecto de Salvamento de Bracara Augusta. 
 

A acção conjugada do Governo de então e dos arqueólogos permitiu a publicação de um pacote de legislação tendente a libertar de construção boa parte dos terrenos arqueológicos de Braga, enquanto se definiam, através de escavações, sondagens e prospecções electro-magnéticas, os limites da cidade romana. 

A legislação criada entre 1976 e 1979, que definia uma zona non edificandi para Braga, preservando os terrenos arqueológicos, nunca foi renovada. Neste sentido, as áreas onde jaziam enterradas as ruínas da cidade romana continuaram ameaçadas pela expansão urbanística. A Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho viria, assim, a ter que realizar constantes escavações em diferentes pontos da área urbana de Braga, dando resposta ao crescente surto de construções nas décadas de 80 e 90. 
 

Em 1992, e para fazer face aos trabalhos arqueológicos indispensáveis à recuperação do Centro Histórico de Braga, foi criado um Gabinete de Arqueologia na Câmara Municipal de Braga, que dispõe de uma equipa que funciona em estreita articulação com a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. 

Para fazer face à acumulação do espólio resultante das escavações e à manutenção dos conjuntos de ruínas postos a descoberto foi revitalizado, em 1980, o Museu D. Diogo de Sousa, que havia sido criado em 1918, mas nunca dotado de um quadro de pessoal.  
 

Muito embora, a protecção legal dos terrenos arqueológicos de Braga, tenha deixado de funcionar desde 1979 e só tenha sido possível preservar da construção uma área restricta da parte sul da cidade romana, as dezenas de escavações realizadas, desde 1976, permitiram renovar por completo os conhecimentos sobre Bracara Augusta. 

A recuparação da memória de Bracara Augusta, iniciada no séc. XVI, foi feita de sobressaltos, de despertares sucessivos e de inúteis destruições, ainda realizadas nos nossos dias. O que se salvou constitui ínfima parte da vida de uma grande urbs, mantida hoje em raros núcleos de ruínas conservadas e visitáveis, nos registos arqueológicos daquelas que, uma vez escavadas, foram sacrificadas à construção, nos objectos conservados em Museus e, finalmente, nos estudos já publicados.