| Actividade
artesanal
Uma grande cidade como Bracara Augusta possuía, necessariamente, uma actividade artesanal intensa e diversificada que pudesse corresponder de imediato e sem custos excessivos às necessidades primárias da população. No entanto, o carácter perecível de certos produtos, a raridade de inscrições conhecidas referentes a artífices locais, a dificuldade em distinguir, apenas pelos objectos encontrados, o que resulta de uma actividade artesanal organizada, do simples trabalho realizado num quadro puramente familiar e, sobretudo, as sucessivas e profundas destruições a que tem estado sujeita, até hoje, a cidade romana, não nos permitem conhecer, com segurança, a organização do trabalho dos sapateiros, correeiros e curtidores, dos marmoristas, pedreiros, escultores, lapidadores, dos serralheiros, ferreiros e ourives, todos eles certamente com assento em Bracara Augusta, cujas ruas animavam desde as primeiras horas da manhã. Melhor testemunhada encontra-se a actividade da olaria, que terá desempenhado um importante papel na vida económica da cidade e que floresceu devido à existência de barreiros de boa argila nas proximidades de Braga. Entre os produtos
característicos da olaria romana conta-se a generalidade da cerâmica
comum de uso doméstico, produzida com argilas oriundas da zona de
Prado, situada cerca de 6 Km a NO de Braga,
que chegaria à
cidade através da via XIX. Um produto de melhor qualidade, conhecido
por "cerâmica bracarense", de pasta clara, formas delicadas e cuidado
acabamento, imitando o fabrico das "paredes finas" e as formas, quer de
sigillata, quer de modelos de baixela de metal, poderá ter sido
igualmente produzido em Bracara Augusta, com caulinos oriundos
da orla litoral. No entanto, os estudos em curso não são
ainda conclusivos relativamente à origem bracarense desta cerâmica,
que poderá ter tido como centro produtor o acampamento romano de
Acquis Querquernis, situado no eixo da Via Nova, mas já
em território da actual Galiza.
Um conjunto de pequenas lucernas de uso corrente, de fabrico local, apresenta a assinatura de Lucretius, que poderá ter sido um oleiro com oficina em Bracara Augusta, em finais do século I. Dois moldes de lucernas, assinados por L. Munatius Treptus, sugerem, entretanto, que aquele conhecido oleiro do Norte de África teria aberto na cidade uma olaria subsidiária da oficina norte-africana. Bracara Augusta conheceu, também, a produção de ânforas fabricadas, provavelmente, com argilas da zona de Prado, cujo estudo se encontra em curso. Os dados disponíveis
apontam para a existência de um bairro artesanal na encosta sudoeste
da Colina do Alto da Cividade, cujas ruínas foram parcialmente escavadas,
aquando da urbanização da zona. Entre os revolvimentos provocados
pelas máquinas foi detectada uma construção com átrio
lageado, no centro do qual existia um poço. O seu entulho, uma vez
removido, forneceu entre outros materiais, pasta de vidro de cor verde
gelo, comum em vidros dos séculos I/II, a qual, à mistura
com tijolo refractário, recoberto por escorregamentos de vidro fundido,
constitui um dos sinais reveladores do fabrico local deste material. Vários
compartimentos rectangulares, um dos quais com um tanque recoberto de argila,
cuja análise revelou ser preveniente de Prado, sugerem, igualmente,
a produção de cerâmica nesta zona da cidade.
As evidências de fornos, detectadas em intervenções de emergência em vários locais da cidade, designadamente numa intervenção a sul da Rodovia e numa na R. dos Falcões, embora não completamente esclarecedoras quanto à sua funcionalidade, são sugestivas de actividades artesanais. Parte de um equipamento artesanal, de funcionalidade indeterminada, poderão ser ainda as ruínas descobertas numa escavação de salvamento realizada na zona dos Granjinhos, que evidenciam um conjunto de áreas aquecidas com hipocaustos e canais. A descoberta de moldes de sítulas com decoração geométrica, numa escavação realizada nas Antigas Cavalariças do Regimento de Infantaria de Braga, terreno pertencente actualmente ao Museu D. Diogo de Sousa, constitui um interessante indicador da presença em Braga de metalurgistas, desde momentos precoces da ocupação romana. Fora dos limites da área urbana é conhecida a presença de pisoeiros, em Montariol, a partir de uma referência epigráfica presente numa dedicatória a Marte Tarbucelis. |