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Cultos
Os romanos prestavam
culto a vários deuses, aos Lares e Génios, divinizando, também,
entidades abstractas como a Fortuna, a Vitória ou a Paz. O culto
de todo este conjunto de divindades era diversificado, incluindo a oferta
de altares e monumentos, a realização de procissões,
ou a imolação de animais. Em Braga foram encontradas várias
inscrições que testemunham a riqueza da religião romana
e também, a tolerância religiosa deste povo. De facto, as
divindades indígenas continuaram a ser veneradas, ao mesmo tempo
que ganharam expressão, por todo o Império, os cultos aos
deuses orientais, alguns dos quais com grande sucesso, como o de Isis e
Mitra.
Culto
Imperial
À semelhança
de outras cidades da Hispânia, Bracara Augusta conheceu
o culto imperial, que se iniciou com Augusto, através do qual se
rendia homenagem às qualidades e virtudes dos imperadores. Um monumento
encontrado em Semelhe, nos arredores de Braga, consagrado a Augusto pelos
Bracaraugustanus, no dia do aniversário natalício
de Paulo Fábio Máximo, governador da Citerior, (280=ILER
1028), datado de 3/2 a.C., constitui um importante testemunho
desse culto, talvez mesmo o mais antigo.
Na área urbana,
são igualmente abundantes as inscrições que sugerem
o referido culto, como acontece com aquela que é dedicada ao Génio
de Augusto (CIL II 5123), com uma outra erigida a Caius e
Lucius Caesar, netos de Augusto (CIL II, 2422), ou, ainda,
com o monumento a Agrippa Postumus, filho do lugar tenente
do Imperador, ambas anteriores ao ano 4 da nossa era. O conjunto destas
inscrições representa uma primeira fase na imposição
deste culto, que traduz, simultaneamente, a imposição do
poder de Roma sobre a região.
A partir de Tibério,
o culto imperial passa a comportar a existência de templos e de colégios
sacerdotais. Não existindo até ao momento evidências
de templos em Bracara Augusta, é justo destacar, todavia,
dois monumentos epigráficos que testemunham um culto já estruturado
em colégios. Um deles, refere um sacerdote do culto imperial, Camalo,
designado como sacerdote de Roma, de Augusto e dos Césares, homenageado
pelo Convento Bracaraugustano (CIL II, 2426). A inscrição,
procedente de Dume, foi datada do tempo dos Flávios. O outro monumento,
refere uma sacerdotiza do mesmo culto, de nome Lucrécia Fida, que
faz uma dedicatória à deusa Isis (CIL II, 2416). A lápide,
que se encontra incrustada na parede da capela-mor da Sé de Braga,
virada à R. da Nossa Senhora do Leite, foi datada do século
II.
Deuses
Clássicos
Os deuses clássicos
do panteão romano estão bem representados em Bracara
Augusta .
Júpiter, o
deus mais importante, foi homenageado através de vários altares,
sendo igualmente popular nos arredores de Braga, onde foi honrado com os
epítetos de Óptimo e Máximo (Iovi Optimus Maximus)
e Repulsor, ou Depulsor, como acontece numa
inscrição de Dume (CIL II, 2414=ILER, 102).
Dos monumentos encontrados
em Braga, dedicados a Júpiter, merecem destaque dois, pela importância
dos dedicantes. Um deles, um altar, datado dos finais do século
I, foi dedicado a Júpiter Óptimo Máximo, por Gaio
Júlio Saturnino, soldado da VII Legião Gemina Felix,
certamente aquando da sua estadia em Bracara. O outro monumento,
uma lápide, conservada na parede do Hospital de S. Marcos, virada
à R. dos Falcões, é dedicada, por Aemilius Crescens,
à saúde do legado Trianus Maternus, sendo datada
do 1º quartel do séc. II (CIL II, 2415).
Marte, deus agrícola,
protector dos guerreiros, está igualmente presente nos arredores
da cidade, sendo referido num monumento procedente de Montariol, com o
epíteto Tarbucelis. O deus poderia, nesse caso, ter
sido adoptado como patrono de uma pequena comunidade de pisoeiros aí
residente.
Os deuses da saúde,
Esculápio e Hígia, foram igualmente honrados
em Braga, sendo referidos numa dedicatória única, feita por
um indivíduo, cujo nome Marcus, indica, muito possivelmente,
a sua condição de liberto (CIL II, 2411=ILER 183).
Uma inscrição
em honra do deus Evento, mandada fazer por Flávio Fronto
(CIL II 2412) e datada entre finais do século I/inícios do
II, parece indicar um reconhecimento do dedicante, de origem indígena,
à divindade, talvez pela sua recém-adquirida cidadania, expressa
no nome Flávio.
Mercúrio,
deus pouco homenageado no território nacional, foi honrado em Braga
numa única dedicatória, da qual se desconhece o nome do dedicante.
Embora não
se conheça qualquer referência epigráfica à
deusa Minerva, protectora das artes, dos ofícios, da guerra
e da política, sabemos que a sua imagem foi venerada em vários
locais da cidade, fazendo-se representar por estatuetas de bronze, muito
estereotipadas, presentes em contextos habitacionais.
O culto dos Génios,
que incluía os espíritos divinizados de pessoas, ou a divinização
tutelar de um monumento ou cidade, está representado em Bracara
Augusta por uma inscrição ao Genius Macelli
(Génio do Mercado) (CIL II, 2411), que ilustra bem a importância
da actividade comercial da cidade. Esta inscrição, datada
de finais do séc. I/inícios do II, tem como dedicante um
Flávio Urbicio, nome que poderá indicar a aquisição
do estatuto de cidadão romano por parte de um indivíduo de
origem indígena.
Os Lares,
divindades protectoras da família, dos caminhos e dos lugares, por
vezes mesmo com tutela sobre uma colectividade, estão testemunhados
em Braga apenas na forma de Lares Viales, sendo de destacar,
pela sua qualidade, o monumento recentemente encontrado na abertura do
túnel entre a Avenida Central e o Campo da Vinha, cuja localização
parece assinalar, muito presumivelmente, a saída de uma via.
Cultos
indígenas
A tolerância
religiosa dos romanos está bem demonstrada na persistência
dos cultos indígenas. Nabia, divindade feminina, das águas,
montanhas e florestas, e uma das divindades indígenas mais honradas
em território nacional, parece ter tido como local de culto a área
envolvente da Fonte do Ídolo, onde foi encontrado o único
altar conhecido, dedicado por Rufina.
Tongonabiago
é outra das divindades indígenas veneradas em Braga, estando
representado na Fonto do Ídolo, monumento talhado na rocha, mandado
erguer por Celico Fronto, natural de Arcóbriga (CIL II, 2419).
Senaico e
Ambiorebi, foram dois outros deuses indígenas aos quais Arquius,
filho de Cantaber, mandou erigir dois altares (AE 1973, 307;
308), encontrados nos terrenos perto do actual Museu D. Diogo de Sousa.
Do panteão
de deuses indígenas venerados em Bracara Augusta faziam
ainda parte Ambieicer, homenageado por A. Caecicius
Paternus (ILER 717) e Frovida à qual, Materna, filha de
Flaco, ergueu uma dedicatória (EE VII, 403=ILER 853)
Cultos
Orientais
Testemunho da importância
assumida pelos cultos orientais, que lentamente se impõem no Império,
é a inscrição dedicada à deusa Isis, que possuía,
em Braga, o epíteto de Augusta e que foi honrada, no séc.
II, por uma sacerdotiza do culto imperial, Lucrécia Fida (CIL II,
2416).
O culto de Mitra,
embora não testemunhado directamente por inscrições
que o refiram, poderá, também, ter sido praticado em Bracara
Augusta . Com efeito, a existência nesta cidade de uma associação,
cuja memória nos ficou pela expressão sodalicium bracarorum,
lavrada numa grande pedra, parece indicar a prática deste culto,
que seria realizado em espaço próprio.
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