| Epigrafia
Tanto quanto sabemos
os monumentos epigráficos de Braga começaram a ser recolhidos
no séc. XVI, por acção de D. Diogo de Sousa, altura
em que se terá iniciado, também, a sua divulgação.
Deve-se, contudo, a Jerónimo Contador de Argote, já no séc.
XVIII, a primeira resenha sistemática das inscrições
então conhecidas. Desde então, foram vários os autores
que se debruçaram sobre este tipo de material, dando conta das inscrições
aparecidas e desaparecidas, merecendo destaque, para o séc. XIX,
quer a publicação do corpus da epigrafia bracarense,
compilado no CIL de E. Hubner (1869) e nas Notícias arqueológicas
de Portugal, obra datada de 1871, quer o esforço sistematizador
de Albano Belino, um dos mais persistentes divulgadores da epigrafia de
Braga. Já no séc. XX a epigrafia mereceu a atenção
de vários especialistas, designadamente de A. Tranoy, P. Le Roux
e José dEncarnação. No entanto, com excepção
das inscrições funerárias, que mereceram um estudo
de conjunto, continua a faltar um estudo autónomo do conjunto da
epigrafia romana.
![]() As características deste tipo de material, designadamente a sua mobilidade e utilização como material de construção, justificam o reduzido número de epígrafes conhecidas e conservadas, quando comparado com o de outras cidades romanas, sobretudo se tivermos em conta a dimensão e importância de Bracara Augusta. A mobilidade deste
tipo de material fez certamente com que muitas inscrições
tivessem sido deslocadas do contexto urbano para propriedades vizinhas,
ou mesmo longínquas. Esse parece ser o caso de inscrições
honoríficas aparecidas em Semelhe e em Dume, cujo local original
de procedência deveria ter sido o forum. Por sua vez,
algumas epígrafes deverão ter sido usadas como material de
construção na época medieval e moderna. No entanto,
é provável que muitas delas se encontrem ainda escondidas
no subsolo da cidade, como deixam prever algumas descobertas recentes,
em desaterros, nas zonas periféricas da cidade, designadamente no
subsolo do Teatro Circo, onde foi encontrada uma dedicatória a Júpiter
e perto do Banco de Portugal, onde apareceu uma ara aos Lares Viales.
![]() O material epigráfico de Bracara Augusta encontra-se disperso por vários museus, estando algum guardado em casas particulares e outro incrustado nas paredes da Sé Catedral, ou noutros edifícios da cidade. O Museu D. Diogo de Sousa, o Museu Pio XII e o Museu da Sé Catedral, todos em Braga, albergam algumas dezenas de inscrições. O Museu da Sociedade Martins Sarmento conserva igualmente inscrições de Braga, que faziam parte do legado de Albano Belino. Das casas particulares com colecções significativas destaca-se a Casa do Avelar que possui um bom conjunto de inscrições funerárias. Do conjunto das 67 inscrições romanas conhecidas, 9 são honoríficas, 16 são votivas e 42 funerárias. Apesar de escassas elas constituem uma fonte muito importante para a reconstituição da história da cidade. Através delas chegam-nos registos de actos políticos e religiosos, mas, sobretudo, nomes de divindades, de agentes administrativos, da elite urbana, ou de simples habitantes, cuja memória se fez perpetuar na pedra. Embora não
muito significativo em termos numéricos é de assinalar, pela
sua importância, o conjunto das inscrições honoríficas,
6 das quais datadas da época de Augusto, sendo duas delas pedestais
de estátuas. Todas parecem relacionar-se com a fundação
da cidade e com a imposição do culto imperial, sendo sugestivas
do ambiente político e religioso que envolveu a fundação
do novo aglomerado.
![]() Deste conjunto, merece destaque a inscrição que se encontra na parede da Sé Catedral (CIL II, 2421), cuja recente reinterpretação permite considerá-la como a expressão de uma refundação simbólica da cidade, devido à queda de um raio. Ligeiramente mais tardia, pois data do tempo de Cláudio (42-44), mas igualmente importante pelo seu valor histórico, é a inscrição dedicada a C. Caetronius Miccio pelos cidadãos romanos que negociavam em Braga (CIL II, 2423). As restantes 2 inscrições honoríficas seriam provavelmente tardias, tendo sido ambas destruídas. Uma delas, era dedicada a Constantino Magno, ostentando a outra apenas a palavra Gallaecia. O corpus das 16 inscrições votivas testemunha alguns dos cultos que seriam praticados em Bracara Augusta, contemplando, quer divindades clássicas, quer orientais, quer ainda indígenas (Cultos). Memória singela e parcelar das práticas de fé que animaram a cidade, este reduzido número de inscrições constitui o documento mais relevante para o estudo da religiosidade da população de Braga durante o período romano. O conjunto das 42 inscrições funerárias conhecidas recobre um período cronológico amplo, situado entre os sécs. I e III, repartindo-se pelos quatro grandes núcleos de necrópoles, Maximinos (6), Via XVII (18), Campo da Vinha (4) e Rodovia (7), sendo 6 de proveniência incerta. O seu estudo sistemático, realizado por A. Tranoy e P. Le Roux (1989-90, 183-230), permitiu obter dados sobre os cultos funerários e sobre a natureza e composição social da cidade durante o Alto Império. Entre as principais conclusões destacam-se as que se referem à predominância da população peregrina na composição social da cidade, face a uma minoria de indivíduos com estatuto jurídico de cidadão romano. As inscrições funerárias testemunham, ainda, uma presença assimétrica de tumulações de indivíduos possuidores de cidadania romana, nas várias necrópoles, mais significativa na da via XVII. Este facto, em conjugação com a melhor qualidade das sepulturas conhecidas nesta necrópole, pode indicar que as elites urbanas residiriam preferencialmente no sector oriental da cidade. |