Necrópoles 

As cidades romanas observavam religiosamente uma regra na implantação dos seus cemitérios: estes situavam-se sempre fora dos limites da urbe, de preferência junto e ao longo das vias que dela saíam. As necrópoles permitem, assim, delimitar, com bastante rigor, o perímetro urbano e deduzir, também, os posicionamentos dos principais eixos de acesso à cidade. Por sua vez, os enterramentos, quando bem conservados, proporcionam peças intactas, que facilitam a sua datação e o estudo dos materiais similares, que se recolhem, normalmente fragmentados, nas camadas relacionadas com as habitações. Também as lápides funerárias fornecem, quase sempre, preciosas indicações sobre a antroponímia e, por vezes, sobre a condição social e origem dos mortos. 

Até hoje foi possível detectar quatro grandes necrópoles em Bracara Augusta: a necrópole de Maximinos (via XVI), a Oeste e Sudoeste; a necrópole da via XVII, a Este; a necrópole do Campo da Vinha (via XIX), a Norte e a necrópole da Rodovia, a Sul (via Bracara-Emerita). Finalmente, em 1994, foi identificada o que julgamos ser uma 5ª necrópole, a NO do Campo da Vinha, eventualmente associada à via XVIII. 

Esta série de necrópoles permite estabelecer, pela sua disposição, os limites da cidade romana, pelo menos a partir da segunda metade do século I. Parece apontar, por outro lado, para uma dicotomia espacial na estrutura social, sugerida pela distribuição dos achados arqueológicos: na metade ocidental da cidade ficavam os bairros mais pobres; na metade oriental, e em particular na zona nordeste, situavam-se as residências mais ricas. 

Finalmente, verifica-se que a disposição das necrópoles não contraria, mas antes parece concordar com o traçado em elipse do circuito de muralha que tem sido proposto por diversos eruditos e arqueólogos.  

 
 

Necrópole de Maximinos 

A necrópole de Bracara Augusta que foi melhor estudada, situava-se a Sudoeste da cidade romana, em Maximinos, no respectivo Largo, sob a R. do Caires, prolongando-se até à Praça do Condestável. As escavações efectuadas nessa zona, detectaram vários grupos de covachos, correspondendo a incinerações, com um espólio ritual relativamente pobre, constituído por cerâmica local. Esta necrópole, com enterramentos datáveis dos séculos I, II e III, assinala a saída de Bracara Augusta para Olisipo (Lisboa) (via XVI). 

O conjunto das inscrições funerárias conhecidas desta necrópole, em número de seis, é bastante reduzido, não permitindo uma avaliação da origem social da população enterrada. 

Um das inscrições aí encontradas, pertencente à colecção do Museu D. Diogo de Sousa, constitui, todavia, um exemplar curioso de inscrições em verso, até agora o único testemunho encontrado em Braga. 

A inscrição lavrada numa estela revela o nível de romanização do meio indígena da cidade, no século III da nossa era. 

a)  EGO-HIC-IACEO / MECVM-SIMVL / QVINTICVS - H(ic)-S(itus)-E(st) /   
     QVI-PIVS-OBSEQ/VIO-PATRI-FELIX/QUE-IN-AMICIS  

b)  [N]VNC-VNO-TEGIM/[VR] TVMVLO-QVI-LEGIS / [DI]CES-SIT-VOBIS TERRA /  
     [LEV]IS-CATVRA VXS/[OR---  

Tradução:  

    É aqui que eu repouso e comigo o jovem Quintus, que foi piedosamente respeitador do seu pai e feliz nas suas amizades.  
    É um único túmulo que agora nos abriga. Leitor, tu dirás: que a terra vos seja leve; Catura a sua esposa...
 Leitura de A. Tranoy e P. Le Roux (1989-90, 188).  
 
 

Necrópole da via XVII 

Esta necrópole, documentada por antigos achados de sepulturas e de lápides funerárias, encontradas durante as obras de construção do edifício dos Correios e de prédios da Avenida da Liberdade, foi confirmada pela escavação, de dois túmulos, no Largo Carlos Amarante, em 1993.  

Enquanto uma das sepulturas foi de imediato destruída, outra, intacta, foi cuidadosamente escavada e removida. Selada por uma cobertura de três pequenas lages graníticas, era formada por uma pequena caixa rectangular de tijolos. Do seu interior foi retirado um valioso espólio: um anel, um aro, um brinco, duas contas de colar, todos em ouro, quatro alfinetes de cabelo de osso revestido a folha de ouro, oito vasos de cerâmica local, quatro unguentários, uma taça de vidro e uma moeda. Este conjunto permite afirmar que na sepultura II do Largo Carlos Amarante foi incinerada, no século II, uma ilustre dama bracarense. 

Mais tarde, em 1987, verificou-se que esta necrópole se estendia até à chamada Cangosta da Palha, onde foram exumadas várias dezenas de sepulturas, intactas, mas sem espólio votivo. Este pormenor e as características de algumas sepulturas indicam que este sector da necrópole deve ser atribuído a um período avançado do Baixo Império, ou mesmo posterior, correspondendo, eventualmente, ao máximo alargamento do cemitério que se estendia ao longo da saída para Acqua Flavia (Chaves)(via XVII). 

Ao contrário das restantes necrópoles de Bracara Augusta, onde as sepulturas são relativamente modestas, com especial destaque para a de Maximinos, a necrópole da via XVII revela a presença de indivíduos de origem social mais elevada, que se fazem enterrar com espólio rico e abundante, deixando a sua memória perpetuada por estelas funerárias, cuidadosamente trabalhadas. 

De um ponto de vista socio-cultural a necrópole regista uma variada composição, observável a partir das trinta e quatro referências onomásticas registadas. 

Cabe destacar o franco predomínio de indivíduos detentores de cidadania romana, relativamente à população peregrina, bem como o número razoável de pessoas ligadas ao meio servil e liberto, associado ao grupo de cidadãos. 

Uma interessante estela funerária, proveniente desta necrópole, encontrada no séc. XVIII, nas imediações do convento dos remédios, e pertencente à colecção do Museu D. Diogo de Sousa, atesta o que foi dito. 

AGATHOPODI / T(iti) SATRI / ZETHVS / CONSERVVS  

Tradução:  

A Agathoupous ? (escravo de) Titus Satrius. Zethus, o seu companheiro de escravatura.  

 Leitura de A. Tranoy e P. Le Roux (1989-90, 193).  

A estela exibe um conjunto de insígnias profissionais que testemunham que o defunto seria um ferreiro. A partir desses elementos podemos deduzir que o seu patrão Titus Satrius seria, muito provavelmente, um próspero artesão de Bracara Augusta. 

 
  

Necrópole da Rodovia 

Esta necrópole, já conhecida por antigos achados, foi confirmada pela abertura de uma vala para saneamento, na chamada Rodovia, na zona sudeste da antiga cidade romana. No espaço estreito da vala detectaram-se diversos túmulos em forma de caixas, revestidas de tijolos e tégulas, violados e sem espólio funerário. Esta necrópole, da qual devem subsistir outras sepulturas sob o pavimento da Rodovia, assinala a saída de Bracara Augusta para Viseu e Emerita, por Caldas de Vizela e Freixo (Marco de Canaveses). 

São escassas as inscrições procedentes desta necrópole. Das sete inscrições conhecidas, quatro testemunham defuntos de origem indígena, fazendo referência ao local de onde provêem. As outras testemunham indivíduos relacionados com o meio servil. 

Um dos exemplares epigráficos melhor conservados desta necrópole é constituído por uma estela encontrada e guardada na Quinta de Avelar, que homenageia um indígena originário do Castro Acripia, que corresponderá, hipoteticamente, ao Castro Máximo. 

ARQVIVS - / VIRIATI F(ilius) / ) (castello?)- ACRIPIA(?)/ H(ic) - S(itus) - { S(itus)} - E(st) / MELCAE/CVS - PELISTI /MONVMENT(um)/POSV[IT] 

Tradução: 

Aqui jaz Arquius, filho de Viriatus, do castellum (?) Acripia (?); Melcaecus, filho de Pelistus mandou erguer este monumento. 

Leitura de A. Tranoy e P. Le Roux (1989-90, 210). 


 
 
 
Necrópole do Campo da Vinha  

Embora seja a única necrópole referida e localizada no Mapa de Braunio, no século XVI, no ponto de encontro da Rua Alferes Ferreira com a Praça Conde de Agrolongo, esta necrópole é a pior conhecida. A ela podem ser atribuídas algumas sepulturas em caixa de tijoleira e quatro inscrições funerárias que testemunham uma origem servil e indígena da população aí sepultada. 

Esta necrópole poderá corresponder à saída para Lucus Augusta (Lugo), por Ponte de Lima e Valença (via XIX), traçado parcialmente comum ao da via XX. 

FAVSTVS / IVLIAE / SEVERAE / S(ervus)-A(norum)- XIX /H(ic) - S(itus) - E(st) 

Tradução: 

Aqui jaz Faustus, escravo de Iulia Severa, com a idade de 19 anos. 

Leitura de A. Tranoy e P. Le Roux (1989-90, 217).  
 
 

Necrópole da Via Nova 

Os trabalhos arqueológicos de salvamento realizados entre 1994 e 1995, na Avenida Central, permitiram identificar vestígios de sepulturas de incineração, atribuíveis a uma necrópole inédita, situada a NE do Campo da Vinha. Uma das sepulturas encontradas era constituída por uma pequena caixa feita de tégulas, contendo uma lucerna de cerâmica vidrada.