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S.Cristovam

VM.08

Povoados

Lugar: Ruivães

Freguesia: Ruivães

Concelho: Vieira do Minho

Código Administrativo: 031114

Latitude:41.40.40

Longitude: 1.05.30

Altitude: 650 metros

 

Extracto da Carta Militar de Portugal, escala 1:25000, com localização do sítio arqueológico.

(ID331-469:17) - Panorâmica do sítio arqueológico de S. Cristovam, vista de Este.
Acesso: O acesso ao local faz-se a pé, com dificuldade pelo antigo caminho carreteiro lajeado, hoje desactivado, que conduzia da aldeia de Ruivães a S. Cristovam, ou mais facilmente, mas também a pé, pelo caminho vicinal que sai da estrada nacional EN.103 ao kilómetro 89, para Sudeste. Atingindo-se a vacaria, deve seguir-se junto à levada de água até cruzar o antigo caminho de Ruivães.
Descrição Física: O sítio arqueológico corresponde a um pequeno alvéolo que, virado a poente, é limitado a NE pelo outeiro de S. Cristovam e a SO pela colina designada Outeiro do Curral. Zona de meia vertente, muito recortada e bem drenada, conhece uma ocupação do solo diferenciada. A parte agricultada, a de maior extensão, é dominada por parcelas armadas em socalcos, onde se conservam espessos solos antrópicos; a maior parte das leiras estão abandonadas, apresentando uma cobertura vegetal rasteira, com predominância de giestas e tojos. A zona de monte apresenta uma cobertura vegetal dominada por matos e arbustos rasteiros (tojo, giestas, fetos e herbáceas). O substrato rochoso, granítico, é recoberto por um solo pouco espesso, que frequentemente deixa a descoberto a arena de alteração (saibro) ou as massas rochosas que afloram em caos de blocos. Dispersos pelo terreno abundam pequenos blocos graníticos afeiçoados.  

 

Vista parcial do sítio arqueológico de S. Cristovam, evidenciando a armação do terreno em socalcos e a reutilização de blocos de granito afeiçoados nos muros divisórios de propriedade.

 

 

Pormenor de uma aglomeração residual de materiais de construção no sítio arqueológico de S. Cristovam, percebendo-se a existência de fragmentos de tegulae.
Descrição Arqueológica:Dispersos pela plataforma superior e vertente NE do Outeiro do Curral, que se estende armada em socalcos pelo alvéolo em direcção à elevação de S. Cristovam, encontram-se abundantes fragmentos de cerâmica de construção tipo imbrex e tegulae, bem como grandes quantidades de blocos graníticos afeiçoados, de tamanho médio, reaproveitados nos muros de divisão das parcelas. No solo das diferentes plataformas identificam-se alguns alinhamentos incipientes de pedras, reveladores da existência de estruturas enterradas, e recolhem-se fragmentos de cerâmica doméstica (p.ex. de dolium). Na banda Norte do alvéolo, ao meio da coroa do outeiro de S. Cristovam, conservam-se vestígios de 4 sepulturas escavadas na rocha granítica - duas completas, de forma antropomórfica bem desenhada e duas incompletas, de que restam o topo das cabeceiras. Destinadas a enterrar adultos, têm os pés orientados para nascente e a cabeça para poente. Nos terrenos contíguos ao afloramento rochoso onde foram escavadas as sepulturas observam-se inúmeros alinhamentos de paredes arruinadas, desenhando edificações de planta rectangular e quadrada. A edificação que ostenta paredes mais espessas que as restantes é considerada pela população local como ruína de uma antiga igreja. Nas proximidades, abandonada contra um muro de divisão de propriedade, encontra-se a taça fragmentada de uma provável pia baptismal. Por aqui passa o caminho lajeado que ainda há poucos anos ligava o lugar a Ruivães, para Sudoeste e a Botica, para Este.
 

Interpretação:Com base na ergologia dos materiais, interpretamos o primeiro conjunto de vestígios como ruínas de um povoado ocupado em época romana. Dominando a encosta que faz a passagem do vale do rio Cávado ao vale do rio Rabagão, o povoado de S. Cristovam revela uma estratégia de implantação claramente relacionada com a passagem da via romana XVII, que ligava Bracara Augusta a Aquae Flaviae. Pode até admitir-se, tendo presente o achado dos miliários da Portela de Rebordelos (ou Rebordendo) e de Botica, que o seu traçado servia directamente o povoado de S. Cristovam. Considerando o contexto arqueológico próximo, em que se destacam os povoados fortificados de Outeiro do Vale, Ruivães e de Linharelhos, Salto, pode considerar-se que o povoado romano de S. Cristovam seria um importante vicus, podendo inclusivamente colocar-se a hipótese de corresponder à mansio Salacia, uma das três que serviam a via XVII entre Braga e Chaves. O segundo grupo de vestígios interpretam-se como ruínas de um povoado medieval, o qual julgamos corresponder à sede de S. Martinho de Vilar de Vacas, freguesia referenciada nas Inquirições de 1258 e da qual terá evoluído a actual aldeia de S. Martinho de Ruivães. Da aldeia medieval de S. Martinho de Vilar de Vacas pode dizer-se que era sede de um território bastante povoado - no século XIII incluía as aldeias da actual freguesia de Campos, factor que terá contribuído para que mais tarde, já como Ruivães, tenha atingido o estatuto de concelho.

Pormenor de duas sepulturas escavadas na rocha no sítio de S. Cristovam.

Cronologia: Pela tipologia dos materiais e pelo contexto histórico-arqueológico, o sítio de S. Cristovam terá conhecido uma ocupação que se terá prolongado, não necessariamente de modo contínuo, dos primeiros séculos da nossa era até ao fim da Idade Média.

Bibliografia: ALARCÃO, Jorge de (1982) - Roman Portugal, II, (Gazetteer/Inventário), (Fasc. 1), Warminster.
           (INQ.1258), Portugaliae Monumenta Historica. Inquisitiones, I, Academia das Ciências, Lisboa, 1888, pp.1510-1511.
           PEIXOTO, Rocha (1967) - Sepulturas abertas em rocha, Obras, I, Câmara Municipal de Póvoa de Varzim, Póvoa de Varzim, pp.370
           VIEIRA, J.C. Alves (1925) - Vieira do Minho. Notícia Historica e Descriptiva, União Gráfica, Vieira do Minho, pp.342

Observações: As coordenadas reportam-se a um ponto central da estação arqueológica. O sítio designado por povoados romano e medieval de S. Cristovam é, pelas características fisiográficas de implantação e pelos contextos histórico-arqueológicos que associa, um local de grande interesse científico e inegável valor histórico e cultural, sendo o seu estudo fundamental para a compreensão das modalidades e hierarquização dos povoamentos romano e medieval da região do alto Cávado. Pelas razões acima aduzidas, e porque conserva um enquadramento paisagístico sem grandes perturbações, a Câmara Municipal de Vieira do Minho propôs que o local designado por povoados romano e medieval de S. Cristovam fosse classificado como Imóvel de Interesse Público (ou Sítio de Valor Regional). O local é conhecido da bibliografia arqueológica que, contudo, apenas refere a existência de duas sepulturas escavadas na rocha e restos associáveis a um antigo templo. Nenhum autor faz referência aos vestígios associáveis a uma ocupação romana do local.

Autor: Luis Fontes

Ligação à C.M de Cabeceiras de  Basto

Ligação à C.M. de Vieira do Minho

Ligação à Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho

Ligação ao Projecto Geira

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