GRUPO DE AMIGOS DO
MUSEU D.DIOGO DE SOUSA

BOLETIM Nº 5



Museu Abade Baçal, Bragança - análise da temperatura e humidade relativa um ano após a abertura

As condições ambientais como meio de conservação e preservação das espécies museológicas têm merecido, da parte dos especialistas da matéria uma atenção e investigação sistemática sobretudo a partir da década de 70 (ver, por ex., Thomson, Garry, The Museum Environment, London, Butterworths, 1978). A procura da estabilidade óptima do ambiente em que as colecções são guardadas e expostas levou a uma investigação interdisciplinar envolvendo técnicas de vários domínios, desde a arquitectura à química ou à biologia, entre outros. Hoje cabe ao museólogo ou ao conservador o estudo casuístico das colecções, da arquitectura e do clima para que as exigências mínimas (ou óptimas) de conservação sejam seguidas. É evidente que há uma hierarquização dos factores que mais contribuem para a degradação do objecto ou do acervo, cabendo a primazia a factores cuja degradação que provocam é irreversível - caso da luz e da poluição (ver Casanovas, Luís E. Elias, 1993: 163 e segs).
O Museu do Abade de Baçal reabriu ao público em Março de 95, após uma campanha de obras de beneficiação que prepararam o edifício para níveis elevados de exigência de conservação do acervo museológico. O controle ambiental é efectuado através da circulação forçada do ar previamente filtrado e levemente arrefecido (no Verão) e aquecido (no Inverno) e por meio de aquecimento central.
A temperatura - e a humidade, obviamente - é hoje vista em termos museais não no sentido do conforto proporcionado ao visitante, mas, isso sim, aos objectos museológicos. Assim, como na maior parte dos museus, as colecções são heterogéneas, daí que seja necessário tentar conciliar os vários interesses em jogo; aquando de incompatibilidades, isola-se o que necessitar um tratamento ambiental mais rigoroso (por exemplo, os marfins em caso de humidade relativa muito baixa).
Não há modelos estáticos a aplicar, antes o estudo individualizado da unidade, mas "depois de Garry Thomson passou-se a considerar que a temperatura não era em si um factor significativo desde que se mantivesse dentro dos parâmetros usuais, 20°C - 26°C" (Casanovas, Luís E. Elias, 1993: 172). É verdade que se a temperatura subir acima desta e se estiver associada a níveis altos de humidade relativa pode desencadear-se um aumento das reacções químicas degradativas, ao mesmo tempo que se pode assistir a uma proliferação de fungos.
Por outro lado, a descida acentuada aquém do valor mínimo mencionado (temperaturas, por exemplo, da ordem dos 13°C, 14°C ou 15°C) pode provocar estragos assinaláveis em determinados tipos de objectos (por exemplo, pintura sobre tela ou madeira). O que se deve concluir do acima dito, e já neste boletim escrito por Luís Elias Casanovas, é que temos que tentar conciliar a estabilidade da temperatura com a humidade relativa, mas a favor desta e em detrimento, se tal for o caso, daquela.
A preponderância do factor humidade relativa sobre a temperatura é devida a que sempre que esta é superior a 70% "a estrutura aumenta de dimensões, torna-se plástica, perde rigidez e, simultaneamente, fica muito vulnerável à formação de fungos. Quando a humidade relativa desce abaixo dos 40% a estrutura contrai-se, aumenta a rigidez, as substâncias orgânicas têm tendência a ficar quebradiças, e nos têxteis dá-se a formação de electricidade estática. Nos metais surge a corrosão activa a partir de 50%. Mas mais importante que o valor da humidade relativa é a sua oscilação que, se for brusca, pode provocar danos consideráveis alterando a estabilidade dimensional dos objectos com o aparecimento de fendas e deformações várias, provocando a migração de sais na cerâmica e tornando opacos certos tipos de vidro e de cristal. Daí o princípio defendido por Garry Thomson, e todos os especialistas, da prioridade da estabilidade da humidade relativa: "a humidade relativa não deve ter oscilações superiores a 10% nas 24 horas..." (Casanovas, Luís E. Elias, 1993: 169-70).
Seguindo estes ensinamentos efectuámos, desde a reabertura do museu, o registo semanal da temperatura e da humidade relativa em duas salas consideradas aconselháveis para o efeito (uma no 1º piso e outra no 2º, com acervo expositivo heterogéneo) através de dois termohigrógrafos calibrados de fábrica.
Da análise dos gráficos podemos tecer algumas considerações acerca do comportamento ambiental do museu em termos de temperatura e humidade relativa. Em termos genéricos podemos afirmar que as amplitudes térmicas mensais são mínimas, andando por valores médios dos 3°C a 4°C, sendo as amplitudes térmicas diárias (não constando do gráfico) geralmente da ordem de 1°C a 1,5°C, situando-se a máxima detectada a 2,5°C. Também podemos afirmar que os picos momentâneos das maiores amplitudes térmicas mensais se situam nos meses de Verão, sendo atingida a máxima em Setembro na sala 7 do 2º piso com o valor de 8,5 °C, devido ao arrefecimento climatérico verificado no final deste mês, e, por isso, o aquecimento foi ligado no dia 1 de Outubro.
Outro factor importantíssimo a reter, em nossa opinião, é a diferença de temperatura entre os dois pisos sobretudo nos meses de Verão (chegando a ser de 5°C), sendo nos de Inverno irrelevantes. Este diferencial de temperatura é provocado pela subida de ar quente através do vão da escadaria nobre, num extremo e, no outro, do duplo pé direito da sala consagrada à iconografia local, subindo o ar quente e concentrando-se no piso superior. Eventualmente uma melhor regulação da circulação dos fluxos do ar das diferentes salas poderá proporcionar uma melhoria de resultados. Todavia, em termos de arquitectura museal e em situações deste tipo, julgamos ser um dado a ter em conta.
Não foram registados sistematicamente (por falta, já suprida, de um termohigrógrafo para o efeito) os valores da temperatura e da humidade relativa das reservas (fora, ainda, do circuito de ar climatizado), nem do exterior.
Contudo, podemos afirmar que as diferenças de ambas as variáveis no interior e no exterior do edifício são consideráveis. A título de exemplo damos os valores relativos à semana de 12 a 19 de Março último no primeiro piso da Biblioteca, a funcionar como reserva do museu:

Temperatura Humidade relativa
Máxima Mínima Máxima Mínima
7,2°C 0,5°C 85% 55%

Se compararmos com as temperaturas do mesmo período da sala 7 do segundo piso, podemos dizer que as diferenças térmicas são enormes: máxima de 7,2°C para 21°C, mínima 0,5°C para 18,5°C. As diferenças na humidade relativa são de: máxima de 85% para 57% e mímima de 55% para 32%. Estes valores parecem indicar que arquitectonicamente o edifício se encontra relativamente bem isolado em relação ao ambiente externo. É evidente que no Verão se verifica o oposto, isto é, mais calor no exterior do que no interior do edifício.
Para finalizar esta apresentação isolada da temperatura convém salientar que chegámos a obter temperaturas de 28°C no 2º piso, dado que não é de negligenciar. Também é verdade que os valores de humidade relativa se situam entre os 35 e 59%, portanto relativamente baixos e impeditivos da formação e propagação de colónias de fungos. Não é propriamente - tendo em conta o que dizem os manuais - um caso de alarme, mas é, todavia, uma variável a acompanhar com alguma precaução.
A humidade relativa é, em termos genéricos, relativamente baixa, situando-se, em termos médios, entre os 40 e os 60%, se exceptuarmos os picos das trovoadas de Verão e o aquecimento, a diminuir no futuro, nos meses de Inverno. Por outro lado, a variação máxima diária nesta variável situa-se sempre abaixo do limite dos 10% aconselhado por Garry Thomson.
A diminuição da temperatura durante os meses mais frios, provavelmente para desconforto dos visitantes, terá de ser efectuada de alguns graus, de maneira a obter uma humidade relativa preferencialmente sempre acima dos 45% (por causa da madeira). Mas também no Verão necessitaríamos de, pontualmente, fazermos elevar a humidade. Para o conseguirmos, ainda que pontualmente, temos duas opções: ou arrefecer ligeiramente o ar ou utilizar humidificadores de qualidade regulados por humidóstato. A utilização de humidificadores, além de outros problemas, pode conduzir à formação - sobretudo de Verão - e desenvolvimento de colónias de fungos no interior do edifício se elevarmos a humidade a níveis superiores aos do exterior. É, pois, necessária muita ponderação e não esquecer que o acervo museológico do Museu tem já uma longa vida habituado a níveis de humidade relativa bastante baixa.
Para finalizar reiteraria a minha opinião dos bons resultados alcançados no isolamento arquitectónico do acervo expositivo em relação às condições climatéricas exteriores, muitas vezes extremamente duras, assim como da eficácia do material técnico seleccionado para a criação e manutenção da estabilidade ambiental do interior do edifício.

João Manuel Jacob
Director do Museu Abade Baçal

Bibliografia
Casanovas, Luís E. Elias (1993), Conservação e condições ambiente segurança, in Iniciação à Museologia, Lisboa, Universidade Aberta, págs. 161-187.
Idem (1990), Segurança e Prevenção nos Museus (destacável), in Boletim do Grupo de Amigos do Museu Regional de Arqueologia de D. Diogo de Sousa, nº 2, Set. 1990.
Idem (1994), A Conservação Preventiva: evolução do conceito e algumas questões práticas (destacável 2), in Boletim do Grupo de Amigos do Museu Regional de Arqueologia de D. Diogo de Sousa, nº 4, Jan., 1994.
Rocha-Trindade, Maria B. (Coord.) (1993), Iniciação à Museologia, Lisboa, Universidade Aberta, nº 54.
Thomsom, Garry (1978), The Museum Environment, London, Butterworths, (2ª edição de 1986).
Idem (1969), La Préservation des biens culturels, UNESCO, Musées et Monuments, XI.
Idem (1982), La Conservation: un défi à la profession (nº dedicado), Museum, vol. XXXIV, nº1.


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